Elisário Bahiana
Embora fosse natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 4 de dezembro de 1891, e onde se formou engenheiro-arquiteto pela antiga Escola Nacional de Belas Artes, em 1920, foi em São Paulo que Elisiário Antônio da Cunha Bahiana realizou a maior e a mais significativa parte de sua extensa produção.
Quando a empresa paulista Sociedade Comercial e Construtora Ltda. é contratada pela Administração Municipal do Rio de Janeiro para construir sua Escola Normal, ela chama Bahiana para participar do projeto e da fiscalização da construção. Concluído o trabalho, Bahiana aceita o convite da Sociedade e, em 1930, transfere-se para São Paulo em caráter definitivo. Nessa cidade, participou inicialmente da reforma do Palácio dos Campos Elíseos, mas foi o projeto para o Edifício Saldanha Marinho que tornou seu nome conhecido. Concebido para sediar o Automóvel Club Paulista, o edifício teve as obras paralisadas, quando então se cogitou em transformá-lo em sede da Prefeitura de São Paulo. O assunto suscitou polêmicas e, graças às notícias veiculadas pelos jornais, divulgou o nome de Elisiário Bahiana.
O edifício Saldanha Marinho acabou, por fim, abrigando a Cia. Paulista de Estradas de Ferro, e foi tombado pelo Condephaat, em 1986. É um dos primeiros arranha-céus de São Paulo e exemplar dos mais destacados do estilo art déco.
Bahiana vence em 1934 o concurso promovido pela Prefeitura Municipal de São Paulo para o projeto do novo Viaduto do Chá. A obra, concluída em 1938, tornou-se referência/símbolo da cidade, assim como o Edifício João Brícola/Mappin (1937), situado na Praça Ramos de Azevedo, na cabeceira do Viaduto, também de sua autoria.
Também foi responsável pelo projeto original para o Hipódromo Paulistano, em Cidade Jardim, concluído em 1941, conjunto que igualmente identifica um lugar da cidade. Embora a sede social, de início em personalíssima arquitetura art déco, tenha sofrido alterações, a implantação geral do Jockey Club, bem como o projeto das Arquibancadas com a cobertura em extraordinário balanço de 25 metros, estão de acordo com a concepção inicial de Bahiana, em projeto feito para a Sociedade Comercial e Construtora Ltda.
Entre 1929 e 1941, foram sucessivamente erguidos os edifícios-marco mencionados, aos quais ele acrescentou outros projetos e obras até 1974, ano do último trabalho do qual se tem notícia (ele contava, então, com 83 anos).
A contribuição principal de Elisiário Bahiana foi difundir o uso racional da nova tecnologia do concreto armado para as estruturas, juntamente com o emprego de elementos formais do repertório art déco, que ele traz a São Paulo e ajuda a divulgar. Surgido ao lado de outros movimentos artísticos do período entre-guerras na Europa, de onde irradiou-se para outros continentes, o art déco intencionava desvincular-se dos ditames da Academia e expressar a nova modernidade caracterizada por grandes mudanças na tecnologia, na economia e na área social. Na arquitetura, sua característica principal foi a idéia de movimento, traduzida geralmente em decomposições prismáticas e escalonadas, ou terminações curvas à moda da arquitetura naval, que conferem ao edifício - visto agora como volume, em oposição ao fachadismo dominante até então - um caráter dinâmico.Também caracterizam o art déco os elementos decorativos, de inspiração fundamentalmente geométrica ou exótica.
O ano de 1942 marca também o início da atividade didática de Elisiário Bahiana. Por 27 anos, de 1943 a 1970, quando se aposentou, foi professor do curso de Arquitetura da Escola de Engenharia, depois Faculdade de Arquitetura Mackenzie, nas disciplinas de Prática Profissional e Paisagismo.
Suas aulas de paisagismo versavam sobre jardins clássicos ingleses e franceses, cujo traçado ele pedia aos estudantes que examinassem e reproduzissem em desenhos a bico de pena. Nem todos os ex-alunos lembram do conteúdo de suas aulas. Todos lembram, porém, da figura elegante e miúda do professor; dos ternos de linho, camisa de seda e chapéu geralmente colocado torto na cabeça calva. E da incrível perícia de manter aceso entre os lábios um cigarro Cairo, muito forte, em fina piteira de bambu durante horas, enquanto falava. Sua maneira de lecionar era totalmente anticonvencional; nas aulas de paisagismo, rodeado por pequenos grupos de alunos, punha-se a pintar aquarelas com grande perícia mostrando os truques da técnica enquanto a cinza do cigarro caía e misturava-se à aquarela dando-lhe consistência de têmpera. Além do reconhecimento como exímio desenhista e aquarelista, muitos assinalam o grande conhecimento de Bahiana das técnicas de construção. Também teve uma rápida passagem pela FAU/USP no início dos anos 50.
Verdadeiro boêmio carioca, Bahiana conservou esses hábitos em São Paulo. O traço mais distinto de sua personalidade foi, sem sombra de dúvida, a irreverência. Bahiana utilizou a irreverência para criar ao redor de si um espaço de autonomia, de liberdade em relação aos convencionalismos. É lembrado como contador de casos picantes, galhofeiro, provocador. Outra faceta de sua personalidade: era numismata e filatelista fanático. Ele também foi um artista sensível, que deixou pinturas a óleo, aquarelas e inúmeros desenhos para os projetos - particularmente as perspectivas à mão livre - como testemunhos de seu talento.
Embora tenha sido conselheiro do CREA, 6a Região (São Paulo) entre 1946-49, e novamente entre 1952-54, Bahiana viveu bastante isolado do ambiente profissional. Ele desenvolveu seu trabalho vinculado a grandes firmas construtoras - uma maneira de garantir independência, ainda que em condições econômicas modestas - sem se preocupar em colocar seu nome, ou sua obra, em evidência. Chegou a referir-se a si próprio como "desenhista de construtora".
Bahiana residiu até falecer, em 1980, à Praça Marechal Deodoro, no Edifício Carmen Lopes, prédio de 1928 com elementos art déco de sua autoria. Foi lembrado pelo jornal O Estado de S. Paulo por ocasião de sua morte.
FONTES DE REFERÊNCIA:
Revista aU - Arquitetura e Urbanismo: http://au.pini.com.br/

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