Luz
No início da colonização portuguesa, a Luz era conhecida como "campos do Guarépe" ou "Guaré", uma planície alagável que se estendia a partir da vila na direção nordeste, ao longo do Tamanduateí até atingir o Rio Tietê. Era para lá que os primeiros portugueses levaram suas cabeças de gado, que, livres, se fartavam das pastagens suculentas anualmente submersas pelas cheias de verão.
Na época da fundação da vila de São Paulo, o Guaré era percorrido por uma trilha procedente do sudoeste, onde localizava-se a aldeia de Jeribatiba. Essa trilha cortava longitudinalmente a colina conhecida como Inhapuambuçu (local onde os jesuítas se estabeleceram em 1554) e atingindo a parte mais ao norte da elevação se precipitava por uma íngreme encosta, deparando-se com o vale estreito e profundo do Ribeirão Anhangabaú (atualmente Rua Florêncio de Abreu). A partir daí, cortando o Guaré, seguia em frente até atingir a margem esquerda do Rio Tietê (na atual Avenida Tiradentes). Do outro lado do rio, o caminho continuava em direção à Serra da Cantareira (Avenida Voluntários da Pátria), prosseguindo mais tarde para Bragança e sul de Minas (Rodovia Fernão Dias).
Um trecho desse longo caminho era usado pelos indígenas planaltinos e pelos primeiros moradores de São Paulo de Piratininga. Na beira dele foi erguida ainda no século XVI uma pequena ermida, cuja invocação – Nossa Senhora da Luz – deu origem ao nome do bairro.
À margem do caminho do Guaré, havia uma outra capela, que acabou cedida aos monges beneditinos recém-chegados à vila de São Paulo. Os monges, tão logo se apropriaram da capela em 1598, levantaram a cerca conventual e com isso interromperam a passagem do tradicional caminho (essa passagem, só seria reaberta pelos beneditinos, sob a forma de via pública, em 1784). Os piratininganos, então, tiveram de se servir de um desvio que desde então se tornou o caminho da Luz por excelência: partindo da vila, rumava para o noroeste até o Anhangabaú, transpunha-o por meio de um pontilhão em local próximo ao antigo Beco do Sapo (no início da Rua do Seminário) e tomando a direção norte pelo leito atual da Rua Brigadeiro Tobias se unia, adiante, à antiga trilha interrompida. No ponto de junção dos dois caminhos surgiu o vasto Largo do Comércio da Luz, tantas vezes citado a partir de fins do século XVIII.
Ao longo do trecho inicial da estrada que seguia para o sul de Minas (Rua do Comércio da Luz, atual Avenida Tiradentes), e que consistia praticamente na única via a atravessar aquela parte da cidade, foram surgindo, aos poucos, alguns equipamentos muito importantes para o bairro. O mais venerável deles era o Recolhimento da Luz (originado de velha ermida quinhentista); mas havia também o Jardim Público, antigo Jardim Botânico, criado em 1825; a Casa de Correção (nome da penitenciária provincial); e o Seminário Episcopal, outro amplo edifício construído nos anos de 1850 em terras cedidas pelo Recolhimento da Luz e pelo Bispo D. Antônio Joaquim de Melo na Chácara Episcopal, antiga chácara de Miguel Carlos.
A partir do início da segunda metade do século XIX a região da Luz, até então formada principalmente por chácaras estabelecidas ao longo dos antigos caminhos do período colonial, se torna o primeiro bairro residencial de elite da cidade de São Paulo.
Seus palacetes, erguidos na parte da cidade que crescera em direção ao Mosteiro da Luz, ganharam impulso a partir da construção da ferrovia, inaugurada em 1867.
As sedes dessas propriedades semi-rurais foram, com o tempo, sendo ladeadas por novas construções cada vez mais elaboradas a ponto de, no fim do Império, (antes mesmo da ocupação dos Campos Elísios, loteado em 1878) ter-se tornado o local que reunia o maior número de residências elegantes da cidade.
No âmbito da arquitetura doméstica, verificamos que desde o fim do setecentismo já havia para aqueles lados duas habitações que se destacavam do resto do casario paulistano. Não se situavam na região da Luz propriamente, mas sim nos dois acessos que levavam a esse bairro semi-rural. A presença delas revela, no entanto, que desde o fim do século XVIII era a região norte da cidade a preferida daqueles que dispunham de meios suficientes para a realização de construções residenciais mais ambiciosas.

Na via aberta em 1784, depois conhecida pelos nomes sucessivos de Rua da Constituição e Rua do Senador Florêncio de Abreu, fora levantada uma ampla casa pertencente a Miguel Carlos Aires de Carvalho, procurador da Coroa entre 1786 e 1788.
Sede da chácara de Miguel Carlos, construída em 1784, depois Palácio Episcopal e mais tarde casa do 1º Barão de Piracicaba. Pouco anos antes de ser demolida, em 1890, essa casa chegou a sediar o Colégio Moretzsohn. Anúncio do Colégio Moretzsohn. Almanach da Provincia de S. Paulo feito em 1884. Acervo da Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.
Até meados do século XIX, na região da Luz e em suas cercanias, não haviam sido construídas outras residências à altura das casas de Miguel Carlos e de Neves de Carvalho. Isso mudou com a construção das casas de dois importantes personagens: o Tenente-Coronel Fidélis Nepomuceno Prates e o futuro Comendador José Maria Gavião Peixoto.
Vista posterior da antiga casa de Miguel Carlos, que nessa época passou a ser o Palácio Episcopal. Foto de Militão de Azevedo.
Na Rua da Luz (depois Rua Alegre e hoje Brigadeiro Tobias), confluência com a ladeira que conduzia à igreja de Santa Ifigênia (atual rua desse nome), estava sendo edificada, por volta de 1798, uma vastíssima casa de chácara pertencente ao secretário do governo da capitania, o Coronel Luís Antônio Neves de Carvalho.
A casa de Gavião Peixoto ficava na Rua Alegre. As terras onde foi levantada haviam pertencido anteriormente a um bisavô do proprietário, o Brigadeiro Joaquim José Pinto do Rego de Morais Leme (homem autoritário, irascível e muitíssimo rico). Primitivamente, a propriedade estendia-se para o norte a partir do sopé do chamado Morro de São Bento até o Largo do Comércio da Luz, tendo por limites o Ribeirão Anhangabaú, a Rua da Luz (atual Brigadeiro Tobias) e a futura Rua da Constituição (Rua Florêncio de Abreu).
Casa do Coronel Neves de Carvalho, construída em 1798, depois do Brigadeiro Tobias de Aguiar. Na década de 1860, a casa abrigou o Colégio União, ocasião em que passou por uma grande reforma interna e na parte posterior. Desenho de Alberto Esteves.
Após a morte do brigadeiro, as terras passaram para a filha, D. Maria da Anunciação, cuja casa se localizava, em 1841, na Rua Alegre. Depois do falecimento dessa senhora, a porção mais ao norte da chácara coube a um de seus filhos, o Brigadeiro Bernardo José Pinto Gavião Peixoto, que por sua vez veio a falecer em 1859. Antes de sua morte, porém, cedeu o Brigadeiro Gavião parte do terreno, na esquina da Rua Alegre com Rua Episcopal (atual esquina da Rua Brigadeiro Tobias com Washington Luís), a seu filho José Maria, então delegado de polícia, para que esse pudesse construir, a partir de 1858, uma “boa casa” de estilo neoclássico.
No ano anterior, em 1857, o Tenente-Coronel Fidélis Nepomuceno Prates, genro do Barão de Antonina (senador do Império e outro rico morador da Luz), decidiu erguer o seu solar numa chácara situada na esquina da Rua do Comércio da Luz (Avenida Tiradentes) com a posterior Rua Três Rios (Praça Fernando Prestes).
Essas duas construções foram as primeiras residências rigorosamente neoclássicas da cidade de São Paulo.
Casa de José Maria Gavião, construída entre 1858 e 1860. Foto de Militão de Azevedo.
Casa do banqueiro Camilo Gavião Peixoto, localizada ao lado da casa de seu irmão, José Maria Gavião. Foto de Militão de Azevedo.
Antiga Estação da Luz, no Jardim da Luz, entre 1867 e 1890. A estação deu lugar à atual Estação da Luz em 1900.
Casa de Fidélis Nepomuceno Prates, construída entre 1857 e 1860. Segundo Ramos de Azevedo, o projeto da residência de Fidélis era do próprio proprietário, que foi o primeiro morador da cidade a construir uma sede de chácara em estilo neoclássico, influenciado pela arquitetura da Corte. Possuidor de uma mentalidade ainda ligada ao escravismo, mantinha no fundo do imóvel um tronco para o castigo de seus escravos urbanos. Postal da Escola Politécnica, década de 1910. Acervo do Museu Paulista da USP.
Por volta de 1868, muda-se para São Paulo Antônio Pais de Barros, grande fazendeiro em Rio Claro e 1º Barão de Piracicaba. Foi morar nas imediações da estação ferroviária da Luz, na velha casa da antiga Chácara Episcopal (anteriormente, chácara de Miguel Carlos), situação que o punha em contato direto tanto com suas fazendas e com o porto exportador por meio da ferrovia quanto com as autoridades provinciais sediadas na capital, de cujas decisões políticas dependia o futuro da economia cafeeira paulista.
Não há dúvida de que as circunvizinhanças do bairro da Luz muito se beneficiaram com o início do funcionamento da ferrovia de Santos a Jundiaí. Ao ligar de modo rápido e cômodo o Porto de Santos ao interior paulista, produtor de café, a nova via de comunicação determinou a ascensão econômica, financeira e política da capital. Situada entre os dois pontos extremos da linha férrea, São Paulo acabou guindada à condição de centro da Província, tornando-se pólo de atração para os ricos proprietários do interior.
Naquela altura, a velha chácara de Miguel Carlos já mudara de mãos algumas vezes. Na primeira metade do século XIX, aí habitara João da Silva Machado, ex-tocador de gado vacum, que, enriquecido, foi elevado a Barão de Antonina. Proveniente do Rio Grande do Sul, Machado era um tradicional morador da Luz, tal como seus dois genros Fidêncio e Fidélis Prates. A seguir, transformara-se em residência dos bispos, ocasião em que D. Antônio Joaquim de Melo desmembrara parte da propriedade para nela ser edificado o Seminário Episcopal. A presença do Barão de Piracicaba nas proximidades da Luz iria contribuir para atrair outros personagens importantes provenientes do interior, sobretudo parentes e afins.
Em 1872, Dr. Antônio de Aguiar Barros, futuro Marquês de Itu, pretendendo valorizar suas terras próximas à Estação da Luz, ofereceu um terreno localizado na Rua Alegre, para que a Beneficência Portuguesa construísse nele a sede de seu hospital. A sociedade beneficente havia tentado, recentemente, adquirir um outro lote sito na Rua Alegre, pertencente à chácara do Dr. Antônio Francisco Aguiar e Castro, filho do Brigadeiro Tobias (antiga chácara de Neves de Carvalho), mas as tratativas não haviam dado certo. O Comendador Aguiar Barros aproveitou, então, a deixa e propôs um negócio bastante vantajoso. Considerado o novo terreno em melhores condições que o anterior, e com preço mais em conta, os membros da diretoria da Beneficência responsáveis pela transação aceitaram imediatamente a proposta.
Na época em que vigoravam as teorias miasmáticas de contágio, era inadmissível do ponto de vista higiênico que um hospital fosse construído numa região que viesse futuramente a se tornar muito povoada, sem ar puro, espaço, tranqüilidade e silêncio suficientes. Consultado em 1873 sobre a conveniência de ser edificado o tal hospital na Rua Alegre, o médico da Câmara Municipal se opôs a essa intenção de modo firme. Seu parecer técnico, contudo, acabou desconsiderado pelas autoridades (provavelmente submetidas a fortes pressões políticas) e o edifício do hospital pôde afinal ser levantado no terreno pretendido.

O projeto do hospital datava de 1866 e fora desenvolvido por um “arquiteto” português de nome Manuel Gonçalves da Silva Cantarino; a execução do edifício, porém, somente ocorreria entre 1873 e 1876. Cantarino, ao que parece, era um mestre-de-obras muito talentoso.
NOTA: Durante a Idade Média, prevaleceu a teoria Miasmática, a qual considerava que a doença era causada por certos odores venenosos, gases ou resíduos nocivos (do grego miasma, mancha) que se originavam na atmosfera ou a partir do solo. Essas substâncias seriam posteriormente arrastadas pelo vento até a um possível indivíduo, que acabaria por adoecer.
Antigo Presídio Tiradentes (demolido) que ficava na Avenida Tiradentes próximo do Parque da Luz, em 1937.
Em 1880, os membros da Santa Casa de Misericórdia repetiriam esse tipo de manobra com o objetivo de levar a sede do novo hospital da irmandade, que ia ser construída na Bela Vista, para perto das terras que possuíam no futuro bairro de Vila Buarque. E entre os membros da Misericórdia estava o mesmo Antônio de Aguiar Barros, futuro Marquês de Itu.
Numa época em que eram temidos os hospitais, em geral construídos fora dos núcleos urbanos por serem considerados perigosos geradores de miasmas, o hospital da Beneficência aparentemente não conseguiu suscitar aversão em seus contemporâneos. Antes mesmo de inaugurada a instituição hospitalar, um primo e cunhado de Antônio de Aguiar Barros, o Coronel Rafael Tobias de Barros, filho do 1º Barão de Piracicaba, e mais tarde elevado a 2º barão desse título, pedia alinhamento, em 1875, para erguer um palacete num vasto lote localizado na esquina da Rua Alegre com a antiga Travessa da Conceição, hoje Avenida Senador Queirós. O terreno em questão situava-se ao lado do hospital.

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