Santo André da Borda do Campo
Em 1549, instala-se o 1º Governo Geral do Brasil. Em fevereiro de 1553, já no fim do seu mandato, Tomé de Sousa percorreu a costa do Brasil, em inspeção às capitanias, que constituíam o seu governo. De volta dessa inspeção, em carta dirigida a D. João III, datada de 1º de junho de 1553, relatou o estado em que encontrou a terra:

"(...) ordenei outra vila no começo do campo desta vila de S. Vicente de moradores que estavam espalhados por ele e os fiz cercar e ajuntar para se poderem aproveitar todas as povoações deste campo e se chama vila de Santo-André porque onde a situei estava uma ermida deste apostolo e fiz capitão dela a João Ramalho, natural do termo de Coimbra, que Martim Afonso já achou nesta terra quando cá veio. Tem tantos filhos e netos bisnetos e descendentes dele e não ouso de dizer a V. A., não tem cãs na cabeça nem no rosto e anda nove leguas a pé antes de jantar"
Em 8 de abril de 1553, o governador-geral Tomé de Souza concede foral de vila ao Arraial de João Ramalho na região do Piratininga, ordenando que nela erguessem uma igreja consagrada à Santo André. A vila foi denominada Santo André da Borda do Campo e João Ramalho foi nomeado capitão-mor e alcaide-mor da vila. Vários dos que emigraram com Martim Afonso galgaram a Serra de Paranapiacaba atraídos pelo clima e as vantagens rurais e estabeleceram-se em torno de João Ramalho. Em uma das choupanas que lá havia funcionou a Câmara Municipal, da qual foram preservadas as Atas desde 22 de julho de 1555 até 31 de março de 1558.

Tomé de Souza criou a vila, mas não lhe determinou as divisas. Ela, portanto, compreendia, com as limitações do Foral, todo o planalto e todo o sertão, onde se iam formar outras povoações.
NOTA: Em Portugal, um tipo de lei orgânica dos municípios, denominada foral, estabelecia normas para o governo da comunidade. O foral foi importante para a formação dos municípios da América Portuguesa. Na tradição portuguesa, o foral era escrito a partir de um modelo, mas procurava adaptar-se a situações locais. Entre outras coisas, regulava a tributação no município.
Santo André foi aclamada vila em nome do donatário Martim Afonso de Sousa, por Antônio de Oliveira, na presença do provedor da fazenda real, Brás Cubas. A aclamação foi feita em nome de Martim Afonso, o que era de direito, pois Martim Afonso era donatário da capitania, portanto o dono da vila.
NOTA: Criar uma vila é diferente de aclamá-la: criar é dar-lhe existência jurídica, é ato do poder legal; aclamar uma vila, conseqüência da criação, é instalá-la, torná-la pública, o que é apenas fato.
Os registros sobre a presença de cristãos no planalto são confirmados nas cartas jesuíticas, que informam, já em 1550, que gente cristã habitava com índios aquela área. O padre Leonardo Nunes, constatando que esta população vivia isolada, passando ano sem ouvir missa e sem se confessar, determinou-se-a ir ao encontro deles. O religioso levou consigo alguns “línguas” (pessoas que conheciam a língua tupi e a língua portuguesa) aventurando-se na difícil subida da serra. No local, trabalhou para reunir os cristãos no entorno da ermida de Santo André, fazendo ali confissões.
A Câmara de Santo André compunha-se apenas de um vereador, um juiz e um procurador do conselho e nomeava um escrivão, um porteiro e um almotacé.
Na vila não havia telheiros nem pedreiros. As casas de Santo André eram cobertas de palha, em cujas paredes só havia taipa de mão, quando as havia. A vila era cercada de muros, que se desfaziam com as chuvas, preocupando continuamente os oficiais da Câmara sobre a necessidade de os cobrir para evitar que fossem destruídos.
Com a chegada de Mem de Sá, 3º Governador Geral do Brasil, à São Vicente, parte uma comitiva jesuíta para expôr a precariedade da vida no planalto. Ao tomar conhecimento da situação, em julho de 1560, o governador ordena que a vila de Santo André da Borda do Campo seja extinta e que seus moradores sejam transferidos para o arraial de São Paulo. É formada a Câmara Municipal de São Paulo, entre os dias 31 de março e 5 de abril de 1560.
O núcleo de São Paulo de Piratininga (dos jesuítas) e o núcleo de Santo André da Borda do Campo (de João Ramalho) disputavam o domínio dos grupos indígenas da região. A tensão culminou com a vitória dos Jesuítas e a extinção de Santo André.
Santo André da Borda do Campo não tem nenhuma relação com a atual cidade de Santo André. Teve uma existência efêmera; durou pouco mais de sete anos. Quando foi extinta, não deixou vestígios e ninguém pode afirmar ao certo sua localização. Só se sabe de sua existência graças às atas da Câmara.
FONTES DE REFERÊNCIA:
História da cidade de São Paulo. Affonso de Escragnolle Taunay.

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