João Ramalho
É impossível determinar quem foi o primeiro europeu fixado na costa paulista. Possivelmente foi João Ramalho. Seu contato com índios foi essencial para o conhecimento de trilhas que levavam ao planalto.
João Ramalho é uma das figuras mais misteriosas dos primeiros anos da história paulistana.
Não se sabe ao certo onde João Ramalho nasceu. Alguns historiadores afirmam que era natural de Barcellos, comarca de Viseu. Outros, no entanto, afirmam que nasceu em Coimbra. Alguns indicam Vouzelas ou Boucelas como o lugar de seu nascimento. João Ramalho nunca deu informações precisas sobre sua vida em Portugal. Sabe-se apenas que era casado, e que nunca mais teve notícias de sua mulher depois que deixou o Reino.
Também não são claras as condições em que ele chegou ao Brasil. Pode ter sido um náufrago acolhido pelos indígenas, um degredado do Reino de Portugal, ou apenas um aventureiro.
NOTA: Ser condenado à pena de degredo durante o Antigo Regime português consistia, antes de tudo, em ser obrigado a permanecer por um tempo determinado num local específico prescrito pelas autoridades judiciais lusitanas. Tribunais civis e inquisitoriais estabeleciam as condenações, baseados nos livros das Ordenações do Reino ou do Regimento do Santo Ofício da Inquisição. Dessa forma, criminosos e pecadores foram expulsos de suas terras natais e pagaram por seus delitos em terras localizadas em alguma das possessões portuguesas do além-mar, ou mesmo dentro do próprio território fronteiriço do Reino.
João Ramalho vivia em um lugar chamado Jaguaporecuba, próximo a Ururaí (atual São Miguel Paulista), na taba dos Guaianás, chefiada pelo cacique Tibiriçá, cuja filha Bartira tomara como mulher e com quem havia tido vários filhos. Não só casou-se com ela como assumiu o modo de vida indígena lutando como os índios, nu e pintado, e participando dos cerimoniais antropofágicos que os índios celebravam ao sacrificar os inimigos cativos.
Na região onde atualmente se encontra a Vila de Paranapiacaba, João Ramalho instalou um posto de observação permanente de toda a orla de São Vicente. Seu intuito era acompanhar a entrada de navios na baía e no porto. Se fossem invasores, descia com sua tropa de portugueses, índios e mamelucos para combatê-los. Se não fossem, seriam parceiros com os quais poderia traficar índios inimigos, capturados em combates.
Dessa forma, pôde avistar a esquadra de Martim Afonso de Sousa, que chegou ao litoral de São Vicente em 1532, e já foi recepcionado por João Ramalho e sua comitiva (formada de índios e alguns portugueses). João Ramalho afirmava então, que já havitava a região havia mais de 15 anos.
João Ramalho e seu filho. Pintura de Wasth Rodrigues
Em fevereiro de 1553, já no fim do seu mandato, Tomé de Sousa percorreu a costa do Brasil, em inspeção às capitanias que constituíam o seu governo. Em 8 de abril de 1553, o governador-geral concede foral de vila ao Arraial de João Ramalho na região do Piratininga, ordenando que nela erguessem uma igreja consagrada à Santo André. A vila foi denominada Santo André da Borda do Campo e João Ramalho foi nomeado capitão-mor e alcaide-mor da vila. Ao fim dessa inspeção, em carta dirigida a D. João III, datada de 1º de junho de 1553, Tomé de Souza relatou o estado em que encontrou a terra:

"(...) ordenei outra vila no começo do campo desta vila de S. Vicente de moradores que estavam espalhados por ele e os fiz cercar e ajuntar para se poderem aproveitar todas as povoações deste campo e se chama vila de Santo-André porque onde a situei estava uma ermida deste apostolo e fiz capitão dela a João Ramalho, natural do termo de Coimbra, que Martim Afonso já achou nesta terra quando cá veio. Tem tantos filhos e netos bisnetos e descendentes dele e não ouso de dizer a V. A., não tem cãs na cabeça nem no rosto e anda nove leguas a pé antes de jantar"
NOTA: Em Portugal, um tipo de lei orgânica dos municípios, denominada foral, estabelecia normas para o governo da comunidade. O foral foi importante para a formação dos municípios da América Portuguesa. Na tradição portuguesa, o foral era escrito a partir de um modelo, mas procurava adaptar-se a situações locais. Entre outras coisas, regulava a tributação no município.
Ao conhecer João Ramalho, o Padre Manuel da Nóbrega assustou-se com os hábitos do português e, em 15 de junho de 1553, e assim o descreveu em carta dirigida ao padre Luís Gonçalves da Câmara:

"Nesta terra está um João Ramalho. É o mais antigo dela e toda a sua vida e a dos seus filhos é conforme a dos índios e é uma petra scandali para nós, porque a sua vida é principal estorvo para com a gentilidade que temos, por ele ser muito conhecido e muito aparentado com os índios. Tem muitas mulheres. Ele e seus filhos andam com irmãs e têm filhos delas, tanto o pai como os filhos. Vão à guerra com os índios e as suas festas são de índios e assim vivem andando nus como os mesmos índios"
Mas passados pouco mais de dois meses nas terras paulistas, o Padre Manuel da Nóbrega, ao perceber a importância de João Ramalho para os interesses da Igreja na sua missão de cristianizar os índios, ameniza os pecados sexuais do português, e, para viabilizar o casamento de João Ramalho com Bartira, solicita informações ao padre Luiz Gonçalves, em carta de 31 de agosto de 1553, sobre a esposa que João Ramalho deixou em Portugal.

"(...)João Ramalho, o mais antigo homem que está nesta terra. Tem muitos filhos e é muito aparentado em todo este sertão. E o mais velho deles levo agora comigo ao sertão por mais autorizar o nosso ministério. João Ramalho é muito conhecido e venerado entre os gentios, e tem filhos casados com os principais desta capitania e todos estes filhos e filhas são duma índia filha dos maiores e mais principais desta terra. De maneira que nele e nela e em seus filhos esperamos ter grande meio para a conversão desses gentios. Este homem, para minha ajuda, é parente do Padre Paiva e cá se conheceram. Quando veio da terra, que haverá 40 anos e mais, deixou sua mulher lá viva, e nunca mais se soube dela, mas que lhe parece que deve ser morta, pois já vão tantos anos. Deseja casar-se com a mãe destes seus filhos. Já para lá se escreveu e nunca veio resposta deste negócio. Portanto é necessário que V. R. envie logo a Vouzela, terra do P. Mestre Simão, e da parte de Nosso Senhor lho requeiro: porque se este homem estiver em estado de graça, fará Nosso Senhor por ele muito nesta terra. Pois estando ele em pecado mortal, por sua causa e sustentou até agora (...) Se o Núncio tiver poder, hajam dele dispensa particular para este João Ramalho poder casar com esta índia, não obstante que houvesse conhecido outra irmã e quaisquer outras parentes dela".
A existência da vila de Santo André da Borda do Campo foi curta. Durou apenas oito anos. Com a chegada de Mem de Sá, 3º Governador Geral do Brasil, à São Vicente, parte uma comitiva jesuíta para expôr a precariedade da vida no planalto. Ao tomar conhecimento da situação, em julho de 1560, o governador ordena que a vila de Santo André da Borda do Campo seja extinta e que seus moradores sejam transferidos para o arraial de São Paulo, que a partir de então passa a ser vila.
Os ataques de índios à vila de São Paulo eram constantes. Em abril de 1562, João Ramalho foi eleito pela Câmara e pelo povo, capitão da gente de guerra. Como missão, deveria enfrentar os índios agressores. A câmara ameaça com pena de prisão e um ano de degredo em Bertioga, a quem não obedecesse às ordens de João Ramalho na guerra contra os índios.
1564, João Ramalho se afasta da vida paulistana. Faleceu em 1580.
Índios e cristãos eram polígamos em Piratininga. João Ramalho e Bartira tiveram cinco filhos: André, Joana, Victório (ou Victorino), Marcos, Jordão (ou João), estes, com sobrenome Ramalho, e , ainda Antônio de Macedo e Antônia Quaresma. Pouco se sabe sobre os filhos de João Ramalho. Victorino foi assassinado por índios tupiniquins, Antônio de Macedo era pai de Francisco Ramalho de Macedo, o Tamarutaca, senhor da Aldeia de Gunga, falecido em 1618. Francisco foi casado três vezes, mas não há informação sobre o nome da primeira esposa; a segunda era Francisca e a última era Justina, índia forra.
A neta de Martim Afonso Tibiriçá e filha de João Ramalho, Catarina, casou-se com Bartolomeu Camacho. O casal gerou Anna Camacho, falecida em 1613, que fora casada com Domingos Luís, o Carvoeiro, cavaleiro professo da ordem de Cristo. Deste casal descendem algumas das mais importantes famílias da nobreza colonial de São Paulo: os Camargos, a de Amador Bueno da Ribeira, a dos Antunes Macieis e dos Pedrosos.
FONTES DE REFERÊNCIA:
História da cidade de São Paulo. Affonso de Escragnolle Taunay.

Últimas Atualizações